Posts de Outubro, 2008

Ética, limites e falta deles!

Outubro 29, 2008

 

 “A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta”, disse, sabiamente, o Sr. Álvaro Valls no livro “O que é ética”, 1993. A ética costuma ser confundida com a moral, inclusive pela sua origem. A palavra “ética” deriva do grego “ethos”, palavra a qual pode adquirir significados distintos, costumes ou caráter, de acordo com as suas duas diferentes pronúncias. A definição atual de ética está ligada ao sentido de caráter e dificilmente envolve regras e normas. A Filosofia considera o comportamento ético como “aquilo que é bom” para o indivíduo e para a sociedade, e como o conceito de bondade é relativo e contestável estabelece-se um dilema, o qual cria subsídios para classificar a ética como uma ciência de fundamentação teórica, apenas. Enquanto a moral diz respeito aos costumes e representa um conjunto de normas, princípios e valores os quais fornecem referências ao comportamento do indivíduo de acordo com o grupo no qual está inserido. Desta vez, existem regras previamente estipuladas a serem seguidas e que delimitam o que é bom e o que é ruim no comportamento dos indivíduos para uma convivência civilizada. Por isso é possível afirmar que a moral é normativa. Porém, costumam ser confundidas por se tratarem de expressões sinônimas do ponto de vista etimológico, devido à origem grega e, também, a tradução oriunda do latim.

Assim como o homem, por viver em sociedade e conviver com outras pessoas, deve estar atento e analisar bem suas atitudes frente aos demais homens, qualquer tipo de profissional convive com pessoas diferentes em seu dia a dia de trabalho e deve refletir a respeito desta questão com freqüência; ainda que o código de ética de suas respectivas profissões não se mostre contrário a alguns determinados tipos de comportamentos. Logo, com os profissionais da área desportiva não deveria ser diferente. Além disso, deve se considerar que, por serem consideradas pessoas públicas, muitas vezes, as repercussões de suas falas e de suas posturas possivelmente prejudicarão outros indivíduos inseridos naquele mesmo meio.

Como alguns exemplos, podemos citar alguns episódios atuais protagonizados pelo futebol. Recentemente, o vice-presidente do Botafogo deu algumas declarações criticando alguns de seus atletas e apontando falhas e divisões no grupo. Em outro episódio, na vitória do Vasco por 4 a 2 frente à equipe do Goiás e dentro da casa do adversário, após a partida, o atacante Edmundo criticou publicamente a postura de um de seus companheiros em um determinado momento do jogo. Agora foi a vez de Marcos, goleiro e capitão do Palmeiras, expor seu grupo ao reclamar da falta de qualidade dos reservas e do erro de Martinez no primeiro gol sofrido pelo verdão após a derrota para o Fluminense, no último dia 25, no “Maraca”.

Portanto, vamos esclarecer um detalhe, não existe norma formal que proíba este tipo de comportamento, porém é importante vislumbrar até que ponto estas declarações podem ter atingido as equipes em questão? Será que poderão influenciar seus resultados seguintes? Não é preciso bola de cristal. Basta analisar a queda de desempenho do Botafogo a partir da vigésima segunda rodada (3 vitórias, 3 empates e 4 derrotas).

Sendo assim, se algum atleta ou dirigente ainda tem dificuldades para entender os princípios da ética e compreender que ser ético é fazer o que te beneficie, mas que não prejudique o outro, vamos que facilitar as coisas e repetir um velho ditado é muito sábio e útil ”roupa suja, se lava em casa”!

Para finalizar, um exemplo não menos importante. Há algumas semanas o renomado Alex Ferguson, técnico do Manchester United, criticou a postura da imprensa ao se referir ao técnico do Chelsea, Luís Felipe Scolari, e ainda se proclamou mais experiente e mais vencedor do que o treinador brasileiro. Ó óbvio que ambos estão inseridos em um mesmo ambiente profissional e que faltou ética nestas falas de Ferguson, isso mesmo, faltou de caráter ao autoproclamado “Eu sou o bom”. Por acaso é costume médicos ou advogados criticarem publicamente companheiros de profissão? Claro que não! Porque, independentemente da índole e do caráter do outro, estão sob o juramento de um código de ética. Bom, mas neste caso, acredito ser desnecessário nos aprofundar. O tempo e a capacidade dos treinadores se encarregarão do melhor desfecho. Afinal, o Manchester United do “Sr eu sou o bom” amarga a sexta colocação no campeonato inglês enquanto o Chelsea, do “apenas campeão mundial” Luís Felipe Scolari, é o segundo colocado e, até o momento, só perdeu para o atual líder por um magro 1 a 0.

 

Crise nos campos?

Outubro 25, 2008

“LEVIATHAN QUAE SERA TAMEM”

Qual seria o valor os passes e dos salários de ex-atletas como Pelé, Rivelino, Tostão, Maradona caso atuassem hoje? Seriam Kaká, Robinho, Beckham e Messi capazes de afrontá-los no que tange a estes valores? Não, sei, mas pensemos um pouco a respeito. Se estes “antigos” atuassem no futebol atual e tivessem o mesmo destaque que em suas respectivas épocas a disputa dentre os dirigentes para tê-los em seus clubes também existiriam. Isto elevaria o valor atribuído aos seus passes e aos seus salários, fato o qual nos leva a outra pergunta: Qual o valor do passe de um grande jogador de futebol? Milhões? Bilhões? Qual o salário de um grande craque da atualidade?

É fato que para se especular a respeito do passe e do salário de um jogador de destaque é preciso imaginação e criatividade para se pensar em todos os zeros. O “certo” é que inexiste um limite para estes valores. Aliás, esta é a “certeza”, porque não acredito que seja realmente “o” certo. Estariam os clubes preparados para esta falta de limites? Será que existe algum tipo de planejamento por parte dos clubes para se adaptarem ao voraz e ambicioso mercado de passes de atletas? Provavelmente nem há como fazê-lo. Não é preciso ser formado em economia para ser capaz de perceber que qualquer tipo de planejamento torna-se inviável frente a circunstâncias atípicas e irregulares como a deste mercado.

Existem diversas formas do passe de um jogador ser valorizado, a conquista de um título, a convocação para a seleção de seu país, premiações por suas atuações, patrocinadores, “luvas”, dentre outras. Estes fatos apenas dão um maior respaldo à atual instabilidade dos caixas de muitos dos clubes. Não é por menos que estão enforcados por dívidas. Agora, o despreparo da estrutura administrativa dos clubes e as conseqüências deste sistema vicioso de valorização dos jogadores estão para vir à tona em virtude do momento de mais uma crise financeira mundial. Durante anos os dirigentes permitiram e fomentaram a valorização dos atletas. Brincaram com estes valores como se estivessem em um leilão de caridade. Agora irão se deparar com o fruto podre de seu próprio trabalho, de sua incapacidade e da sua falta de visão empresarial, ou pior, de sua falta bom senso. Ou realmente acreditaram que podiam alimentar esta estrutura e empurrar tudo com a barriga para a bomba explodir nas mãos de outros, ou de um Dinamite? Cartolas hipócritas!

Assim como o sistema financeiro, o mundo do futebol pode estar próximo de encontrar a sua crise. Um obstáculo previsto (esperado), mas imprevisível. Obstáculo que, inclusive, agravará ainda mais a situação dos salários atrasados dos funcionários de muitos clubes.

Por enquanto, acredito não ser conveniente tentar estender especulações de possíveis soluções para esta iminente crise. Porém, não tenho dúvidas de que é possível criar alguns paralelos entre a situação do futebol atual e com os pensamentos do filósofo iluminista, Thomas Hobbes. Se vivesse nos dias atuais seria indicado ao Nobel pela sua teoria, mas duvido de que o receberia. Provavelmente teria um infarto ou surtaria ao perceber que ela se confirma até mesmo naquilo que um dia já pôde ser considerado lazer e/ou esporte. Hobbes, meu amigo, eis a sua sociedade de homens egoístas. Homens que tendem a guerrear entre si e todos contra todos. Eis a sua sociedade, na qual “o homem é o lobo do próprio homem!” e é capaz (ou seria incapaz?) de destruir todo e qualquer tipo de sistema que já tenha criado! Em tempos assim, me pergunto: seria o Leviatã de Hobbes suficientemente competente e forte para reorganizar esta sociedade?

Incoerências da Fórmula 1? Será?

Outubro 20, 2008

Faltando apenas uma corrida para o fim do Mundial de Fórmula 1 de 2008 é natural que o caráter nacionalista de muitos brasileiros os levem a questionar a classificação atual e o possível resultado deste Mundial da categoria. Os fãs do esporte ainda guardam em suas lembranças vários episódios infelizes da escuderia italiana e que prejudicaram nosso maior representante da atualidade, Felipe Massa. Vamos enumerá-los: uma aposta em pneus errados em Mônaco, a falha no reabastecimento no Canadá, a perda do motor na Austrália e na Hungria e, por fim, o episódio circense de Cingapura.

Segundo os resultados do site do “Grid Quatro Rodas”, até o GP da China Massa se mostrou como o piloto mais regular e, inclusive, com mais vitórias (5) em relação ao piloto inglês (4), Hamilton. E mesmo exposto às lambanças de sua equipe se mostrou capaz e merecedor do título por realizar boas atuações e conquistar estes resultados. Não precisaria ser brasileiro para perceber estas questões, basta ter senso crítico. Mas como brasileiro, é óbvio que me sinto indignado com os erros acima citados.

Conclusão? Massa é o melhor piloto da temporada, pelo menos até a China e por isto o título deveria ser dele, não acham? Infelizmente e sinceramente, eu não acho! Pensem bem, a Fórmula 1 é um esporte individual, certo? Errado! Não é por acaso que cada piloto conta com uma equipe de diversos mecânicos, dentre outros profissionais, até mesmo para um simples “pit-stop”. Recordo-me de um vídeo’que recebi por email certa vez o qual mostrava em câmera lenta cada um destes profissionais durante um “pit-stop” da Ferrari. Não me lembro bem do número, mas ultrapassava facilmente 25. Acredito que sempre haverá um piloto campeão, mas piloto algum chegaria a este posto sem a participação dos membros de sua equipe. Se apenas uma peça bastasse para um título, a seleção brasileira de futsal masculino não teria vencido a Espanha na final do mundial no domingo passado (dia 19 de outubro) praticamente sem a participação de um de seus melhores jogadores, o Falcão. Ou o cavaleiro Rodrigo Pessoa teria conquistado o bi-campeonato olímpico nos últimos jogos. Afinal, o que importa é o conjunto!

             Portanto, mesmo que exista um título e um prêmio para o piloto mais pontuado e também para a equipe mais pontuada, qualquer que seja o desfecho deste campeonato a Ferrari não se mostrou merecedora do título por equipes, por não ter feito um campeonato regular; e também não se mostrou merecedora do título de “melhor conjunto”. Pois, o título de campeão não se dá por merecimento ao melhor piloto, mas ao “conjunto de melhor piloto e de melhor equipe”.

(No Podium, Ferrari, Vermelho Vergonha!)           

Excesso de justiça ou reforço de valores morais?

Outubro 16, 2008

Estive acompanhando as notícias a respeito dos julgamentos dos jogadores de Grêmio e de Botafogo. Recentemente o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) levou a julgamento três jogadores do Grêmio e dois do Botafogo em virtude de algumas de suas atitudes em uma partida entre as duas equipes. As punições sentenciadas pelo STJD assustaram muitas pessoas, não só por desfalcar as equipes em questão, mas por criar uma polêmica a respeito de uma possível tentativa de tapetão para retirar a equipe gremista da disputa pelo título. Foi então que li um artigo do jornalista da ESPN Brasil, Mauro Cesar Pereira, em seu blog (http://blogs.espn.com.br/maurocezarpereira/) e achei importante comentar a respeito do assunto.

Um delicado ponto foi levantado a respeito das punições. Teria o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) sido rigoroso ao extremo? Teria cometido um excesso ao acaso? Ou seria uma tentativa de manter a disputa de um dos mais equilibrados campeonatos nacionais apenas entre clubes de São Paulo?

Sinceramente, como educador e emissor de opinião, não acredito em um tapetão e tenho consciência de que não se trataram de decisões ao acaso. Todo aquele que se propõe a agredir (física ou moralmente) o adversário em uma modalidade esportiva deve ser severamente punido. Da mesma forma também acredito que o nível das punições chega a assustar por não se refletirem a existência de jurisprudência. Inclusive pela razão de casos anteriores e semelhantes não terem gerado este tipo de pena. É óbvio e estou certo de que, da forma que as decisões foram tomadas, o Grêmio sairá prejudicado ao extremo (até mais do que o Botafogo, devido a sua colocação atual na tabela). Mas isso não impede que o Tribunal passe a coibir atitudes infelizes como estas. Além disso, quais seriam valores morais estaríamos transmitindo para nossas crianças e filhos se passarmos a fazer vista grossa a este tipo de conduta que não está de acordo com o “Fair Play”.

Concordo com o Jornalista Mauro Cesar Pereira quando afirma que os árbitros que permitiram este tipo de jogo também devem ser punidos. Ainda assim, é preciso ressaltar que o árbitro é um ser humano e não possui visão de 360° para conseguir acompanhar todos os lances de uma partida. Por isso acredito que a possibilidade de se utilizar as imagens de um jogo para encontrar e julgar agressores deveria ser reconsiderada como um recurso legal.

Talvez tenha sido uma decisão radical, mas é preciso que a partir deste momento todo este rigor seja mantido, só assim estaríamos estimulando o jogo limpo e, ao mesmo tempo, não seriam dadas margens para especulações a respeito de um tapetão para retirar o Grêmio da disputa. Inclusive porque, se algum dia, especulações como esta se firmam verdades, a dignidade dos Órgãos Máximos de Justiça Desportiva Nacional seria colocada em xeque. Sugerindo, assim, a impressão de que casos como o da nadadora Rebeca Gusmão tenham sido apenas, como dizem no vocabulário popular, uma tentativa de “pegar um boi de piranha”. E isso frustraria a todos nós, educadores, e a todos os cidadãos brasileiros. Levando o esporte nacional a um descrédito perante sua própria população.

Por isso não acredito nesta hipótese de tapetão. Tenho certeza de que os Órgãos responsáveis pelo esporte brasileiro possuem uma administração ainda carente, talvez falha, mas um Superior Tribunal de Justiça não poderia se daria ao luxo de colocar toda a sua credibilidade às traças. Logo, parabenizo ao STJD pela sua postura e ressalto a importância de que continue a coibir atitudes agressivas e imorais dentro do ambiente esportivo.

 

 A JUSTIÇA TARDA, MAS AINDA NÃO FALHA!

Hamilton, “o brincalhão”!

Outubro 6, 2008

“Ich bin so gut wie Senna”, traduzindo, “Sou tão bom quanto Ayrton Senna.” Esta foi a frase da semana no blog “velocidade.org” dedicado ao automobilismo. Parece brincadeira, mas não foi. O inglês Lewis Hamilton teria soltado esta pérola durante uma entrevista a rede de TV alemã RTL. Sei que é um piloto com grande potencial, mas, ainda assim, gostaria de lembrá-lo de que ainda é cedo para tentar se comparar a pilotos grandiosos como Senna, Schumacher ou Prost. Antes disso, é importante que pense um pouco nos recordes destes pilotos, especialmente de Senna.

Segundo o site “Wikipédia”, Senna é o terceiro piloto da história em quantidade de vitórias em Gps, no número de pódios e nos pontos obtidos, só perde para “Schumi”e Prost. E é segundo na quantidade de Póle Positions. Ainda assim, devemos nos lembrar de que os resultados obtidos pelo alemão foram obtidos após competir durante dezesseis anos (1991 a 2006), os do francês durante ao longo de quatorze anos (1980 a 1993). Já os resultados de Senna foram conquistados durante, apenas, onze anos (1984 a 1994).

Senna também influenciou muitas mudanças no automobilismo. Foi um dos primeiros perceber a necessidade e a importância da preparação física para o piloto. Estudava e sabia a mecânica como poucos pilotos. Isto lhe permitia conversar e dar palpites aos seus mecânicos a respeito do seu carro e, conseqüentemente, complementou suas habilidades dentro de pista para que conseguisse ser campeão, guiando um dos carros mais fracos da história.

Depois de um ano de derrota em 2007 e de perceber a pressão que vem sofrendo em 2008, Hamilton parece precisar utilizar do artifício de se comparar a um dos maiores pilotos do Brasil e do mundo para tentar desestabilizar seu principal adversário, Massa, e/ou ainda criar  algum mecanismo de reforço para que ele mesmo, Hamilton, não perca confiança em si mesmo e seja derrotado novamente.  Por fim, vale lembrar que, em alguns quesitos, Senna sempre será incomparável, na coragem, na inteligência, na ética e na humildade. Hamilton, pode até conquistar o título desta temporada de 2008, mas ainda é prematuro em números e em cabeça para se comparar a um vencedor que, sequer, teria a oportunidade de lhe responder nas pistas. Caso contrário, teria se comparado a Prost ou ao Schumacher.